Alice no País das Maravilhas: quando todo mundo fala e ninguém se entende
Alice no País das Maravilhas costuma ser empurrado para a prateleira da literatura infantil, ilustrado com cores suaves e embalado como fantasia inofensiva.
Mas isso diz mais sobre o nosso hábito de subestimar histórias desconfortáveis do que sobre o livro em si.
Lewis Carroll escreveu uma obra que não tenta acolher o leitor — ela o desorienta.
E faz isso com método.
O absurdo não é um capricho estético.
É uma ferramenta narrativa usada para expor algo profundamente humano:
a comunicação como território de ruído, poder, disputa de sentido e crise de identidade.
Palavras não criam sentido — criam hierarquias
No País das Maravilhas, o desconforto não nasce do estranho, mas da instabilidade. As regras existem, mas mudam sem aviso. As palavras são usadas, mas raramente sustentam significado. A lógica aparece, mas não encontra terreno para se fixar. O resultado é um ambiente onde falar não é sinônimo de comunicar, e compreender se torna quase um acidente.
Alice entra nesse mundo tentando fazer o que qualquer pessoa razoável faria: perguntar, escutar, responder com educação, organizar o caos por meio da linguagem. Ela confia na palavra como ferramenta de entendimento. Mas o que encontra é um sistema onde a fala não constrói pontes — constrói hierarquias.
A Rainha de Copas encarna esse princípio de forma brutal. Sua linguagem não busca clareza, apenas submissão. Ordens são repetidas com violência simbólica, independentemente de contexto ou consequência. A palavra, ali, não é veículo de sentido; é instrumento de medo. Não se trata de exagero cômico, mas de uma crítica precisa ao uso autoritário da linguagem: quando o discurso serve apenas para afirmar poder, o diálogo se torna impossível.
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Quando ninguém escuta, o absurdo se torna sistema
Esse padrão se repete em praticamente todas as interações do livro. Os personagens falam muito, mas escutam pouco. As conversas são atravessadas por ambiguidades, jogos semânticos e interpretações literais que sabotam qualquer tentativa de entendimento mútuo. Carroll constrói diálogos que se comportam como labirintos: começam no meio, dão voltas, tropeçam em si mesmos e terminam sem conclusão. A fala perde sua função comunicativa e passa a operar como ruído.
Nesse universo, o significado das palavras não é estável. Ele se desloca conforme o interesse de quem fala. Quando Humpty Dumpty afirma que uma palavra significa exatamente o que ele quer que ela signifique, Carroll não está brincando com nonsense — está antecipando um problema central da comunicação moderna: quem controla o discurso tenta controlar a realidade. O sentido deixa de ser compartilhado e passa a ser imposto. A linguagem se torna território de disputa, não de construção coletiva.
É por isso que tantas falas no livro soam corretas, elegantes, até sofisticadas — e, ainda assim, completamente inúteis. Carroll ironiza discursos que impressionam pela forma, mas fracassam na função. A comunicação desconectada da realidade aparece como um teatro vazio, onde falar bonito substitui a responsabilidade de dizer algo que realmente importe. O livro desmonta a ilusão de que clareza gramatical equivale a clareza de pensamento.
A lógica de Alice em um mundo que não quer sentido
Alice, por sua vez, tenta sustentar a lógica em um ambiente dominado por impulsos, humores e egos frágeis. O choque entre razão e emoção não é equilibrado; é disfuncional. A racionalidade de Alice não encontra empatia, enquanto a emoção dos outros personagens não encontra limite. Carroll expõe, assim, uma verdade desconfortável: lógica sem sensibilidade falha, emoção sem clareza desorganiza. Comunicação exige equilíbrio — e o País das Maravilhas é a encenação do colapso desse equilíbrio.
Identidade em colapso: quem não sustenta a própria narrativa é engolido
No centro desse caos está a questão da identidade. Alice muda de tamanho constantemente, mas essa metamorfose física é apenas o sintoma visível de uma instabilidade mais profunda. A pergunta que ecoa ao longo da narrativa — “Quem é você?” — não é trivial. Em um mundo onde o sentido das palavras é instável, a identidade também se torna frágil. Quem não sustenta sua própria narrativa corre o risco de ser definido pelo discurso alheio. Carroll sugere, com ironia, que somos menos aquilo que somos e mais aquilo que conseguimos expressar — e sustentar — em linguagem.
O humor que atravessa o livro não suaviza essa crítica; ele a aprofunda. Rimos porque reconhecemos os padrões. Rimos porque já estivemos em conversas que pareciam profundas e não levaram a lugar nenhum. Rimos porque já ouvimos discursos cheios de palavras e vazios de intenção. A ironia funciona como ferramenta de revelação: aquilo que o riso expõe é justamente o que o cotidiano tenta normalizar.
Há também uma dimensão clara de hierarquia comunicacional. Adultos e figuras de autoridade falam para Alice, não com ela. A comunicação é vertical, unilateral, impermeável à escuta. Carroll expõe o fracasso desse modelo ao mostrar que, onde não há troca real, não há entendimento — apenas repetição de poder.
E, curiosamente, em meio a tanto excesso de fala, é o silêncio de Alice que mais comunica. Seus momentos de perplexidade, pausa e confusão dizem mais do que os discursos longos e vazios que a cercam. Carroll nos lembra que o silêncio não é ausência de comunicação, mas, muitas vezes, sua forma mais lúcida.
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Ao final, Alice no País das Maravilhas não retrata um mundo sem sentido, mas um mundo onde o sentido se perdeu na linguagem. Um lugar onde todos falam, quase ninguém escuta e as palavras existem sem cumprir sua função primordial: conectar.
Talvez seja por isso que o livro continue tão atual. Não por sua fantasia, mas por sua precisão. Lewis Carroll não escreveu uma história para crianças. Escreveu uma fábula para adultos que ainda não perceberam que o verdadeiro País das Maravilhas é aquele onde acreditamos estar nos comunicando — quando, na verdade, estamos apenas falando.
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